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Como eu Desenvolvo Software – Parte 3

Continuando o post anterior sobre desenvolvimento, estava falando sobre como um software surge a partir de uma necessidade. É importante notar que, apesar da necessidade orientar o desenvolvimento do um sistema, ele sempre vai existir em uma plataforma, sendo exemplos de plataformas comuns: Windows (consumindo serviços WCF ou acessando direto o banco), web (hospedado localmente ou em algum provedor e acessado por um browser) ou alguma plataforma móvel (android, iOS). A definição da plataforma normalmente implica em algum tipo de restrição ou característica especial no software sendo construído.

Existem ainda as diversas questões de infra-estrutura: a aplicação vai usar banco de dados (SGBD)? Qual? Onde será hospedado? Qual versão de .NET? MS-MVC ou Monorail? E assim por diante… Para simplificar, vou assumir a plataforma web MS-MVC (devo comentar algo sobre outras plataformas no decorrer dos artigos), utilizando a versão mais atual do .NET, utilizando um banco de dados típico (que no meu caso usualmente é o Microsoft SQL Server) e que será desenvolvida utilizando o nosso framework – aplicações que não fazem uso dele ficam tão mais caras que na maior parte das vezes são inviáveis.

Voltando ao exemplo do post anterior, imaginem uma planilha para, por exemplo, controlar viagens de funcionários de uma empresa. As viagens são controladas por funcionário e cada viagem possui informações como data, custo, meio de transporte, destino, despesas diversas e reembolsos. Por alguma razão (volume, por exemplo), alguém avaliou que um sistema poderia diminuir custos de gestão desta planilha, disseminar melhor a informação e facilitar a vida do usuário permitindo, por exemplo, que ele digite as informações diretamente por uma página da intranet da empresa.

Se fosse assumir um sistema deste, a primeira coisa seria entender qual o custo atual do cliente para operar as planilhas, o quanto ele espera gastar e obter com o sistema e avaliar se o que é esperado é factível dentro do que eu acho que seria gasto, baseado na minha experiência no desenvolvimento de aplicações com nosso framework. Teria que ver também se o cliente já está familiarizado com o formato ágil de desenvolvimento e com a nossa forma de trabalho. Caso positivo, teria que identificar a seguir aspectos sobre a infra, ver se já existe um SGBD disponível, onde o servidor web está localizado, se a equipe de infra tem experiência em instalar e manter a aplicação, se os servidores estão atualizados com as últimas versões do .NET etc… Se houver algum problema com algum destes pontos, eu tento resolvê-lo antes mesmo de iniciar o desenvolvimento, pois ele pode se tornar um impeditivo para todo o projeto.

A seguir, ainda na parte de infra, eu identifico como será feita a autenticação de usuários. Normalmente, para aplicações intranet, espera-se uma autenticação integrada com o Active Directory ou algum serviço similar. Para aplicações públicas da Internet, é necessário ver também as questões de segurança, como acesso seguro, certificados para HTTPS, firewalls etc… Muitos desenvolvedores acham que estas tarefas não cabem a nós; eu não consigo concordar com isto, pois falhas nestas áreas podem tornar o melhor software do mundo completamente inútil.

Finalmente, tem-se que decidir como fica o direito de propriedade e uso do software e se o cliente deseja exclusividade sobre algumas porções do software – caso positivo, isto também torna o desenvolvimento mais caro. Como se pode ver, é um grande esforço destinado somente à análise de custo e da infraestrutura, antes mesmo que qualquer hora seja empregada no software em si. Não adianta fazer um excelente software se ele não puder se pagar, ser instalado ou ser mantido adequadamente. Mas apesar da quantidade de tópicos, um checklist com todos estes itens pode ser preenchido em uma ou duas reuniões com as pessoas certas.

Após esta fase, eu posso iniciar a construção da infra-estrutura do sistema. Utilizando o framework, eu posso montar a parte básica da aplicação, que contém uma página default, o banco de dados vazio com a tabela de usuários do sistema, a tela de login com seus respectivos controllers e toda a parte de integração com um sistema de autenticação. Normalmente eu consigo colocar isto no ar em menos de 4h após o início do projeto, pois tenho estas estruturas padronizadas no framework de desenvolvimento. Os casos que demoram mais são os que exigem uma aparência específica do site feito por um designer que me obriga a recortar htmls para a geração dos layouts. Em casos extremos, isto pode levar alguns poucos dias. Esta etapa seria o que alguns chama de Iteração 0. Eu não uso um nome específico, simplesmente utilizo uma parte do esforço da primeira iteração. Como resultado, o cliente já tem o site rodando e logando, caindo na página inicial, com toda a parte de segurança funcionando, e, quando aplicável, com funcionalidades como troca de senhas, “esqueci minha senha” e login integrado.

Paralelamente a esta fase, é feita a primeira reunião de priorização de atividades com o cliente. Nesta reunião são identificadas as funcionalidades principais do sistema e feita a priorização das mesmas. Quando eu faço isto, eu tento já identificar o que pode trazer maior ROI ou maior impacto positivo para o cliente é já sugiro uma ordem de atividades. Quando mais experiência o cliente tem em desenvolvimento no formato ágil, mais ele consegue contribuir nesta etapa. Mas, de uma forma ou de outra, eu tento sempre conduzir para que ele utilize o esforço de desenvolvimento da maneira mais benéfica possível para atingir o objetivo do sistema. No caso da planilha, o que seria mais positivo? Colocar a página pública logo para que os funcionários pudessem já ver o novo sistema e começar a testar o lançamento de dados? Ou colocar a apuração de despesas disponível? Ou facilitar, por exemplo, uma exportação de dados da planilha? Estas decisões são feitas caso a caso, mas imaginemos que no nosso o mais benéfico fosse o lançamento de dados pelo funcionário.

Bom, o post está ficando muito longo, assim vou ter que continuar num próximo, provavelmente a ser publicado só depois do Natal. Até lá e aproveito para desejar a todos um Feliz Natal e Boas Festas!

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Como eu Desenvolvo Software – Parte 2

Se da última vez que escrevi, eu achava que estava sobrecarregado, eu ainda não tinha idéia do que estava vindo! Estes últimos meses tem sido extremamente agitados na White Fox, estamos abrindo várias frentes, criando iniciativas onde um bom software possa ser um diferencial competitivo. Estamos tendo mais sucesso do que eu esperava inicialmente, este ano está sendo fechado com chave de ouro. Em breve, vou escrever sobre algumas destas inciativas aqui. Mas deixe-me continuar finalmente o post anterior, falando sobre desenvolvimento de software.

Como citei no post anterior, a ideia é tentar falar um pouco da maneira pela qual eu desenvolvo software, considerando as metodologias e correntes atualmente em voga. Para começar, acredito que o mais importante de todo o processo é entender que desenvolver software é entregar, dentro de um prazo e um custo acordado, algo que atenda uma necessidade de alguém de maneira satisfatória. Por mais óbvio que isto pareça, a maior parte dos desenvolvedores esquece estes objetivos primordiais. Acredito que isto aconteça porque, como desenvolvedores, tendemos a não lembrar que desenvolver software é uma atividade extremamente cara para quem compra. Assim, não cumprir um prazo pode significar uma perda de oportunidade que inviabiliza todo o investimento. E é claro que não cumprir custo pode fazer com que um investimento seja inviável em termos de resultado financeiro, determinando a falência do projeto. E mesmo atingindo ambos os objetivos, o software ainda tem que servir para melhorar algum processo ou trazer alguma receita, de forma que o investimento feito seja compensado. Claro que muitas vezes isto é difícil de ser avaliado, mas, por mais difícil que seja, isto é o que queremos obter quando desenvolvemos comercialmente. É importante ter isto em mente porque nossas decisões, como desenvolvedores ou arquitetos, vão justamente impactar estas características e elas só fazem sentido quando permitem que a construção do software seja financeiramente viável.

Entregar um software que funciona bem também parece ser algo óbvio, mas que na prática é justamente uma dos pontos mais subjetivos da nossa profissão. Por exemplo, na prática poderíamos construir praticamente qualquer sistema utilizando somente telas de CRUD (listar, editar, alterar, remover). Apesar de funcionar, um sistema assim muito provavelmente seria quase impossível de ser utilizado com eficiência pelos usuários – eu mesmo já tive a chance de conhecer vários sistemas feitos desta forma! No extremo oposto, o software pode ter poucas telas, extremamente complexas e que fazem “tudo”, o que podem pro um lado ser um pesadelo para quem usa ou, mesmo sendo fácil de usar, ser um pesadelo para manter e evoluir – novamente, já vi vários assim. Encontrar o ponto ideal de usabilidade versus produtividade é pra mim um dos maiores desafios do desenvolvimento. No entanto este é um assunto que eu raramente vejo em fóruns técnicos.

Um outro ponto importante dos conceitos gerais de desenvolvimento é a questão da manutenabilidade de software. Esperamos que o software que construímos seja usado por muito tempo, talvez até muitos anos. Assim, se um software for extremamente caro para manter (e manter aqui significa alterar e evoluir o mesmo conforme necessário para o negócio), ele também pode se tornar inviável para quem está comprando. Daí toda esta preocupação de desenvolvedores em fazer software utilizando uma estrutura que permita que ele seja entendido e alterado com facilidade por alguém no futuro. O problema é que isto é também é algo extremamente subjetivo, já que é difícil determinar qual o grau de estruturação que vai permitir atingir este custo ideal de manutenção. Em outras palavras, é muito complicado determinar o quanto a mais tem-se que gastar no desenvolvimento e calcular em quanto isto deixa a manutenção mais barata. Alguns acham, por exemplo, que somente software que faça uso da última moda em BDD, TDD, DDD e etc. teria um custo de manutenção adequado. Mas muitas vezes, o que se gasta para se incluir uma determinada metodologia ou técnica em um processo de construção torna o software tão caro pra fazer que a conta não fecha. Por outro lado temos exemplos de software com anos de uso, em FORTRAN ou CLIPPER, que estão em uso até hoje e que possuem ainda um custo de manutenção que não justifica uma eventual migração. Claro que cada caso é um caso, porém, na minha visão, este é um dos conceitos que mais geram dúvida e que mais é erroneamente empregado por desenvolvedores em geral.

Pra mim a manutenabilidade é super crítica, já que o software que eu construo tem a tendência de ser usado por muito tempo – tenho alguns que estão em uso há mais de 10 anos. Ao longo dos anos, surgem e desaparecem metodologias e técnicas, plataformas e linguagens são evoluídas. A minha solução para isto foi sempre criar um framework que abstraia os artefatos produzidos, na medida do possível, de toda esta mudança, sem perder as novidades. Pra mim, de longe, o mais caro no software é construir interfaces. Assim, desde os tempos do ASP eu trabalho com algum tipo de abstração de interface para tornar isto um pouco mais barato – ver posts sobre produtividade. E interessante que, apesar de todas as mudanças, estes frameworks têm alguns pontos comuns. Claro que hoje em dia, com MVC e jQuery, a facilidade para abstração é muito maior. Porém algumas áreas como visualização e separação lógica, permanecem de maneira muito similar.

Com relação à usabilidade, eu tento manter a criação de telas complexas no limite do que o framework permite. Claro que com a evolução do framework, hoje é possível fazer praticamente qualquer tela. Mas ainda assim, eu sempre prefiro utilizar telas que sejam mais simples de expressar no framework, desde que não atrapalhe muito a usabilidade. É claro que é sempre possível fazer algo super complexo, porém deixo claro para quem compra que a escolha por uma interface complexa vai gerar um maior custo pra fazer e um muito maior pra manter, o que usualmente é um argumento bastante convincente. E interessante de ser ter software usado por muito tempo é que ao longo dos anos, os indicadores mostram que a maior parte do custo de evolução se concentra justamente nas telas complexas, confirmando a teoria de que telas grandes são algo bastante difícil de se justificar, financeiramente.

Então, retomando o tópico principal, como desenvolvo software? Tudo começa com uma necessidade. Para efeito de ilustração, vamos assumir daqui por diante uma necessidade de um cliente que deseja, por exemplo, passar a controlar dados que estavam numa planilha. A partir daqui vou tentar imaginar um software que atenda a necessidade, que seja feito utilizando os artefatos do framework e que custe algo pra fazer que possa ser retornado em algum tempo. Neste exemplo, de uma planilha, o ganho do cliente seria a redução da perda é de tempo dos usuários (afinal manter planilhas grandes é algo complicado), a diminuição do risco de um erro de digitação (planilhas grandes são difíceis de operar) e no aumento da disponibilidade da informação proporcionada por um sistema web.

No próximo post, continuarei deste ponto mostrando como uma necessidade é transformada em software e quais os critérios que uso na construção dos artefatos e na implantação final do produto. Prometo não demorar pra escrever a continuação!

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Como eu Desenvolvo Software – Parte 1

Olá pessoal. Acabei ficando um longo tempo sem escrever, tenho estado anormalmente ocupado nestes últimos meses. Junho foi um mês muito complicado, com as paradas para a Copa do Mundo e a presença no Agile Brazil – isto sem falar em alguns projetos críticos sendo entregues e o tempo dedicado a novos projetos. Com isto, na White Fox, passamos o mês bem sobrecarregados e só agora em Julho é que começamos a voltar ao ritmo normal. Finalmente agora volto a ter um pouco de tempo para escrever alguns artigos!

O evento Agile Brazil foi muito bom. Contou com a presença de grandes nomes do desenvolvimento mundial, como o Martin Fowler e o Philippe Kruchten. E foi excelente pra fazer contato com o pessoal da comunidade .NET do Brasil. Mas este post é sobre algo que conversei bastante com outras pessoas lá e que gera sempre discussões “acaloradas” toda vez que é levantado em uma roda de desnvolvedores (ou em listas de desenvolvedores como a excelente dotnetarchitects): qual o melhor “jeito” de desenvolver software.

Com a aceitação cada vez maior das metodologias ágeis, a minha impressão era que a comunidade estaria mais tranquila sobre metodologias e técnicas para desenvolvimento. Elas sempre evoluem, claro, mas pelo menos em linha gerais, estaríamos em um caminho mais definido. Mas o que eu vejo é que ocorreu algo diferente, uma profusão de metodologias e técnicas e de pessoas que pregam que determinada linha é muito melhor do que qualquer outra. Acho que isto piorou ainda mais porque o modelo “waterfall”, hoje praticamente execrado pela maior parte dos desenvolvedores “modernos”, foi pintando como o maior vilão e origem de todos os males e que a metologia XXX ou YYY chegou para resolver isto!

Longe de mim defenter o uso de waterfall, na maior parte dos cenários. Mas, apesar de todos os problemas e falhas deste tipo de desenvolvimento, o fato é que até hoje temos muitos e muitos exemplos de sucesso,  e que continuam a acontecer ainda hoje. A palestra do Kruchetn foi muito boa neste aspecto, ele citou justamente esta “demonização” do waterfall como um sinal de que nem tudo está bem.

E para quem está começando, eu tenho notado, em geral, uma total confusão. Como as universidades estão alguns ciclos atrás (a maior parte delas ainda prega o waterfall como única e melhor maneira de desenvolver) e sem ter a experiência de ter passado por sucesso e falhas em determinada metologias, os iniciantes ficam sem saber que caminho seguir: Waterfall? nem pensar! Scrum? Como viver com todos os scrum-buts? XP? Como aplicar no meu dia a dia? Isto sem falar nas múltiplas variantes técnicas da construção em si, onde entra TDD, BDD, DDD etc., aliada a uma miríade de plataformas, frameworks, ORMs etc. E sem nem entrar no mérito de linguagens em si, onde temos novamente uma outra gama de escolhas como C#, C++, Java, Rubi, Python etc. E em todos estes, temos muitos “gurus” que afirmam que aquilo é o supra-sumo da agilidade e é a melhor invenção do mundo deste a pólvora, sendo a única maneira de fazer software bem. Realmente é difícil não ficar confuso. Felizmente temos algumas vozes de bom senso, como o Alistair Cockburn, no seu “Juramento de Não-Lealdade”, que talvez comecem a melhorar este cenário.

Na minha visão, escolher uma forma de desenvolver não deveria causar tanta dificuldade. É certo, desenvolver software é algo complicado, exige um misto de dedicação, talento, experiência e muito, muito estudo. Mas, em toda a minha experiência, o que eu tenho visto é que as pessoas que se eforçam para se tornar bons codificadores acabam o sendo de uma maneira geral. Ou seja, um bom programador em C# vai ser um bom programador em Python (claro que uma transição não é simples, pelo volume de novas informações, mas se isto for desejado ou necessário, vai acontecer). Ou seja, os princípios básicos, o cuidado e o gosto pelo que se faz, são fatores mais importantes no sucesso do que qualquer linguagem metodologia, tecnologia ou plataforma que exista. E pra mim, isto vai continuar sendo assim mesmo com o todo o nosso ritmo de evolução… (acho que só vai parar o dia que pudermos solicitar um programa verbalmente e o próprio computador  o gerar… ou seja, daqui a muito tempo!). Óbvio também que nada existe sem contexto, isto é especialmente válido para desenvolvimento de software. Assim, levando em consideração o contexto, algumas escolhas podem levar a uma maior produtividade do que outras.

Para tentar ajudar nestes dilemas, resolvi escrever este e mais um artigo sobre desenvolvimento, e como eu o vejo. Vou colocar alguns princípios que adoto, na medida do possível, de onde eles vieram, e como eu vejo a inserção de toda esta parafernália metodológica/técnica no meu processo de desenvolvimento. Meu objetivo é tentar defender a idéia mais importante dos princípios ágeis, de que pessoas são mais importantes do que qualquer processo, metodologia ou ferramenta, e que os principios básicos ainda são comuns a qualquer atividade de desenvolvimento. Vou também colocar um pouco do meu contexto, para justificar algumas escolhas que faço e como isto afeta a nossa produtividade.

Até a próxima!

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Manutenção de Sistemas

Hoje passei grande parte do dia conversando com clientes e parceiros sobre o processo de desenvolvimento em sistemas onde a maior parte do código é legado. Feliz ou infelizmente este é o caso da White Fox, onde o maior volume de esforço é feito em sistemas que já possuem muitos (alguns mais de 10) anos de existência (vieram por herança da empresa de onde a White Fox foi spin-off). Se por um lado isto demonstra um certo grau de satisfação do cliente por ter mantido o desenvolvimento conosco este tempo todo; por outro significa uma maior complexidade para manter e evoluir o sistemas.

Um ponto interessante que muitas pessoas parecem não compreender é que um sistema “envelhece”. Um argumento comum é “se funcionou até hoje, porque iria parar de funcionar?”. O que este argumento não leva em consideração é que todo sistema tem partes mutáveis. Sejam os dados que mudam de forma ou de volume, seja a plataforma que tem que ser evoluída por obsolescência de hardware ou software. E quanto menos se mexe, mais este processo é visível; tivemos um caso recente em que vulnerabilidades no IIS 6.0 fizeram-nos mudar para o IIS 7.0, porém componentes feitos para rodar no IIS antigo não funcionavam mais no novo e para completar, o fabricante do componente nem existia mais, o que impedia o seu simples upgrade. Acho que a comparação é como a da manutenção de um carro: é possível rodar sem manutenção até um ponto onde componentes começam a parar ou apresentar defeito…. Mas quanto mais se demora para se fazer as manutenções iniciais, mais caro vai ser quando elas se tornarem inevitáveis.

Outro ponto interessante comumente visto é a concepção errônea de que um modelo waterfall seria menos propenso a erros em um processo de manutenção. Definitivamente não é verdade, o que um modelo waterfall normalmente define é um tempo alocado explicitamente para planejamento de migração de legado, testes e garantia. Porém, isto acontece a um custo bem mais elevado do que em uma metodologia ágil. Em uma metodologia ágil também seria possível planejar e gerar testes caso isto traga valor para o cliente. A único questão é quantificar este valor para que a relação custo/benefício faça sentido e estas tarefas sejam adequadamente priorizadas, de forma tão ou mais importante do que as novas funcionalidades.

E interessante que a maior parte da literatura para o desenvolvimento de software trate de novos projetos, existindo pouca coisa específica para o processo de manutenção. Metodologias como o Scrum nem sequer se aplicam a processos de manutenção. Isto me deixa intrigado pois, a meu ver, a maior parte do esforço mundial de desenvolvimento deveria ser em manutenção; não faz sentido nem é sempre economicamente viável reescrever um sistema do zero a cada grande mudança. E nas metodologias ágeis há um dilema já logo no início, pois todas pregam a preparação de um sprint com aquelas tarefas que geram maior valor para o cliente. Ora, evoluir algo que já funciona dificilmente vai ter mais valor para o cliente do que qualquer nova funcionalidade, por menor que seja. Assim, evoluções acabam sempre ficando para segundo plano até o ponto onde acontece um problema grave com uma funcionalidade antiga e aí é um deus-nos-acuda para portar a mesma à toque de caixa ou achar um guru que ainda consiga mexer no legado de uma forma relativamente segura.

Há algum tempo atrás escrevi um post sobre a necessidade de refatoração de grandes sistemas. Hoje vou mais adiante, acho que além da refatoração, é necessário um esforço constante de migração e evolução dos sistemas e componentes legado. Isto deve ser feito enquanto o conhecimento de negócio e técnico ainda está disponível na empresa, para que o custo de atualização fique em um patamar viável. Neste aspecto, a existência de testes unitários e de integração são de grande valia, pois o tempo gasto na geração deste tipo de artefato acaba também se pagando na hora de uma eventual atividade de evolução. Toda a questão é como vender este tipo de atividade para um cliente. O que temos feito recentemente é tentar definir um percentual fixo das horas de desenvolvimento exclusivamente para serem gastas na evolução de partes antigas do sistema. Claro que estas tarefas também estão sujeitas a uma priorização entre si, usando como critério as funcionalidades que são mais críticas para o negócio do cliente e o grau de obsolescência das mesmas.

Outro ponto crítico na questão da manutenção é o procedimento de deploy. Em um sistema novo, fazer deploy é sempre algo trivial (acabamos de encerrar um sistema, por exemplo, onde o deploy é uma simples cópia de arquivos e uma pequena configuração do IIS; daqui a 3 anos duvido que este processo seja tão simples se a aplicação não for evoluída). E o esforço para se manter atualizado uma documentação de deploy para cada Service Pack ou alteração de infra-estrutura não é trivial e convencer o cliente de que isto é algo prioritário e que deve ser feito durante algum sprint é também algo extremamente complicado. De novo o grande motivador é a ocorrência de um erro mais grave, porém aí tudo já vai ser feito sob uma considerável quantidade de stress.

Ainda não sei qual é a melhor maneira de lidar com estas situações. Na White Fox estamos trabalhando com alguns clientes no sentido mitigar estes problemas e trabalhar ativamente na migração de legado. Os sistemas são tão grandes, no entanto, que é necessário um bom trabalho de priorização e um critério rígido de limites para que este esforço não consuma todo o previsto de uma deterimada sprint. Estamos tendo sucesso em alguns casos, porém ainda temos muito a melhorar e acredito também que algumas ferramentas poderiam ser de grande valia na avaliação dos resultados de determinada linha de ação.

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White Fox: O Início

Após a definição do conceito do que buscava nesta minha nova empreitada, a White Fox está finalmente pronta e iniciou suas operações oficialmente este mês! É sempre algo muito especial participar da construção de uma empresa nova; mais especial ainda quando é uma empresa que representa um ideal buscado por muito tempo. Claro que iniciar uma empresa é sempre muito trabalho, muitos trâmites burocráticos, investimentos, implantação de toda a parte de infra-estrutura (ambiente, rede, telefonia etc.) e planejamento financeiro, tudo isto simultaneamente às atividades cotidianas e com uma equipe mínima! Muito cansativo, mas está valendo muito!

Estamos conseguindo começar com um time pequeno, mas totalmente alinhado ao conceito do que queremos para a empresa. Estamos também definindo os contratos de prestação de serviço com os clientes existentes para adaptá-los 100% a um formato ágil. Há uma grande necessidade de negociação, pois, por maior que seja a maturidade deles, sempre é complicado definir um contrato baseado neste tipo de desenvolvimento. Estamos tendo sucesso até agora e acredito que esta experiência vai tornar mais fácil a negociação com novos clientes.

Apesar de contarmos com uma grande vantagem inicial, que é a existência de clientes ativos, a White Fox vai agora encarar desafios bem importantes para se manter e crescer. Na minha visão, os problemas mais difíceis são a definição do processo de prospecção/venda mantendo o resultado, a gestão do crescimento e a definição de um processo interno de desenvolvimento. A questão da prospecção/venda é a mais difícil de ser equacionada. Prospectar significa ter tempo livre, fazer concessões a potenciais clientes (consultorias, análises, demonstrações) para que seja possível mostrar o nosso serviço e permitir que eventualmente seja fechado um contrato de desenvolvimento. Porém, este processo é caro já que o tempo investido é um tempo que deixa de ser aplicado no atendimento de clientes existentes e que, portanto, deixa de gerar receita. E um modelo agile prevê uma confiança enorme da contratante na contratada, o que faz com que muitas prospecções, para funcionar, exijam um grande investimento. Desta forma, prospectar pode significar comprometer grande parte, senão todo, o resultado obtido nos projetos em andamento para tentar trazer clientes novos. Assim, isto é algo que tem que ser pesado com muito cuidado e o que estamos fazendo é praticamente “escolhendo a dedo” os potenciais clientes que achamos que vale a pena prospectar. O lado negativo é que o crescimento é extremamente lento.

A gestão do crescimento é outro grande desafio. Encontrar profissionais prontos com o nível que necessitamos na White Fox é uma tarefa quase impossível. Encontrar pessoal com potencial é bem mais simples, porém treinar alguém com potencial até que esteja no ponto necessário é algo demorado e caro. E escolher o momento de incluir alguém também é algo que exige grande cuidado, já que para prospectar é necessário ter algum tempo livre de pessoas excelentes; no entanto a prospecção é lenta e o treinamento também, assim estes custos podem comprometer completamente o resultado de um período. Estamos tentando balancear isto com um programa de estágio para tentar identificar pessoas com grande potencial e ter um tempo de treinamento mais longo e com isto conseguir um tempo maior para prospecção.

O outro desafio que eu vejo é com relação à gestão interna do processo de desenvolvimento. Nós. por princípio temos uma equipe muito pequena, mas ainda assim é necessário um fluxo de trabalho que garanta o andamento das atividades básicas. Além disto, todos os clientes exigem algum tipo de contabilidade para a gestão de custos, o que significa que tudo o que fazemos deve ser de alguma maneira registrado e totalizado para efeito de faturamento. E como quase todos os nossos projetos são muito antigos, temos que funcionar bem com a manutenção e evolução de sistemas legados de qualidade variada. O que temos feito é dedicar um tempo na busca e definição de metodologia e ferramentas para nos apoiar nesta gestão. Gostamos muito do Scrum mas ele não é aplicável a projetos de manutenção. Da mesma forma, a maior parte das ferramentas de gestão de processos ágeis existentes deixa muito a desejar nesta parte de manutenção e contabilização. Estamos avaliando várias e considerando também a possibilidade de desenvolvimento de uma nossa, simples, mas quer iria atender por completo as nossas necessidades. Acredito que nas próximas semanas nós iremos chegar a uma definição.

No mais, muito trabalho, mas com uma equipe muito motivada. Estamos adotando uma postura minimalista com relação à parte administrativa e financeira; terceirizando quase tudo e adotando práticas que simplifiquem isto ao máximo. O mesmo vale para a parte de infra-estrutura, estamos utilizando quase tudo na Cloud; a única exceção é o source-control, que ainda assim fica em um espaço contratado de um datacenter. Conforme fomos evoluindo vou postando aqui as soluções e caminhos que adotamos. Até a próxima!

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