Como eu Desenvolvo Software – Parte 5

Olá pessoal, um ótimo 2011 para todos! Apesar de muita gente estar de férias, o nosso ano começa a todo vapor, com um projeto grande em andamento e toda a manutenção usual. Continuando a série sobre desenvolvimento, fechei o último post com telas de CRUD já disponíveis no sistema.

Apesar de já termos o sistema com muitas telas operacionais até aqui, para mim isto é de pouco valor já que, para o cliente, o produto ainda não traz nenhum benefício de negócio. Ter um sistema que permita cadastrar dados de apoio não traz nenhum valor agregado e, portanto, possui um ROI nulo. Claro que é uma etapa necessária (e nem sempre muito rápida, dependendo do número de dados de apoio), mas é importante que o cliente e a equipe estejam sempre atualizados nesta visão.

Com os CRUDs prontos, podemos voltar às tarefas que geram valor. As telas construídas nestas tarefas normalmente são bem mais complexas do que um CRUD e são suportadas por regras de negócio que também podem ser complexas. É nestas telas e respectivos serviços (que implementam as regras de negócio) que iremos gastar a maior parte do esforço de construção (e posteriormente, de manutenção). A minha abordagem para estas telas é algo bastante top-down. Eu inicio pela definição do layout da tela. Normalmente uso algum produto para desenhar um protótipo e uso-o para conversar com o cliente e tentar identificar se aquilo atende o que ele espera da funcionalidade. As necessidades de negócio são identificadas e classificadas em métodos de classes da camada de serviços. Por exemplo, suponhamos que ao cadastrar uma despesa de aluguel de veículo, haja uma necessidade de se gerar cálculos consolidados por operadora de aluguel. Neste caso poderíamos criar uma área de serviço responsável por estas atividades (uma classe chamada “GerenteAluguelVeiculos”, por exemplo) e um método para aquele serviço (por exemplo, “RegistrarAluguel”). A partir daí isto é incorporado à linguagem e até o cliente vai saber que existe uma serviço de registro de aluguel no sistema que é responsável por gerar os dados consolidados. Durante a análise, estas necessidades são registradas em novas tarefas, que são cadastradas para priorização e implementação.

Esta separação em classes especializadas para serviços é algo que é bastante polemizado em listas de discussão, já que isto gera um modelo bem anêmico. Em uma abordagem DDD clássica, estes métodos de serviço ficariam nas próprias entidades (veículo?, aluguel?). Porém, na minha experiência e com a tecnologia atual, não há ganhos de produtividade em se fazer isto, muito ao contrário, aliás. Além da complicação gerada pela parte subjetiva, que é de cada desenvolvedor, de identificar qual a classe é responsável pelo quê, o posicionamento de regras de negócio em métodos específicos das entidades de domínio tornaria muito mais complicada a gestão dos aspectos não-funcionais das regras, tais como a necessidade ou não de log, aspectos de segurança, aspectos transacionais etc. Isto é uma particularidade do nosso framework, mas com as regras de negócio somente em classes de serviço, esta gestão fica muito mais simples e com isto temos uma maior produtividade escrevendo estas regras – mais sobre isto no posto sobre camada de serviços da série de produtividade.

Continuando em uma abordagem top-down, eu passo à criação da tela em si. Nesta parte temos um grande apoio do framework, mas ainda assim temos que criar artefatos como views e rotinas para preenchimento de dados. As etapas de criação dos componentes das telas, preenchimento dos dados da mesma e execução de regras de negócio ficam bem separadas, graças ao framework – ver mais no post sobre camada de interface. As ações da tela que irão acionar serviços são criadas, mas, inicialmente, sem executar nada (stubs). Eu tento fazer o máximo de comportamento da tela possível antes de iniciar a construção dos serviços. A idéia é tentar ter um protótipo com pelo menos a parte de navegação funcionando e mostrar isto para o cliente antes de continuar. Isto porque, na minha experiência, quando o cliente vê funcionando, pode acontecer dele se lembrar de algo que não foi incluído na análise inicial e pedir modificações. E também porque o esforço gasto nestas telas é tão grande (de longe, a maior parte do sistema) que é importante ter as definições o mais corretas possível antes de fechar para evitar retrabalho. Isto pode fazer até com que às vezes eu utilize mocks para gerar os dados que seriam retornados por serviços, para que a tela possa funcionar antes deles estarem prontos. Quando o serviço é muito simples, pode ser que eles sejam de fato implementados neste ponto. Algo que é muito comum ser feito nesta hora são consultas específicas de repositório. Coisas como “ObterFuncionariosEmViagem” podem ser criadas como métodos do repositório e já implementados. O framework fornece muitos mecanismos para facilitar a geração deste tipo de consulta, desde expressões lambda até uma fluent language para gerar consultas NHibernate e para manipulação de dados. Para isto eu também utilizo muito raramente testes, pois a linguagem de expressão de consultas é muito simples e raramente gera erros ou dúvidas. E por ser compilada, qualquer problema com alterações de entidades de domínio é rapidamente detectada e corrigida. Os casos que exigem testes são consultas complexas que são expressadas em HQL; como estas são baseadas em strings, podem quebrar muito facilmente com alterações em entidades, além de serem difíceis de escrever.

Quando a tela está praticamente pronta, aí sim começo a escrever a parte de serviços. Muita gente acha que a maior parte do esforço está aqui. Mas em geral, a maior parte do esforço está na tela. Escrever serviços, tirando algumas poucas exceções, é algo bastante simples, especialmente com todo o apoio fornecido pelo framework. Claro que existem regras de negócios complexas em muitos sistemas, mas ainda assim, o esforço gasto nelas não se compara com o de construir todas as telas que não são CRUD. O framework tira do desenvolvedor toda a parte de infra-estrutura, então ele não se preocupa com coisas como transações, gerenciamento de exceções, uso ou não de log, identificação do usuário corrente etc…. Ele praticamente escreve só a regra de negócio mesmo. A consolidação de regras de negócio em classes de serviço separadas por “áreas” facilita o reuso e a localização rápida de regras similares. E o uso dos repositórios para consultas mais complexas permite que o serviço seja basicamente direcionado para as alterações da transação.

Para as regras de negócio o ideal é ter pelo menos um teste unitário com o caminho mais usado da mesma. Não uso TDD por achar que, para o meu caso e para os desenvolvedores com quem trabalho, ele diminui produtividade – conheço pessoas que dizem ser o contrário, mas cada caso é um caso. Na criação de regras de negócio, o importante é ser eficaz e eficiente, ou seja, produzir regras que façam o previsto, no menor prazo possível, e que sejam fáceis de entender e manter. Acho que cada um tem um estilo pra atingir este objetivo, o meu definitivamente não é com TDD. Nunca trabalhei com alguém que usasse TDD de maneira consistente e produtiva em todos os casos, mas se alguém funcionar bem assim, nada contra. Um teste ao menos é importante porque regras de negócio são muito sensíveis a mudanças de negócio. Confesso que nem sempre eu mesmo sigo esta regra; muitas vezes a regra é tão simples (menos de 5 linhas é o típico para regras simples) que o esforço para produzir teste fica questionável. Mas acho que no geral faz sentido ter ao menos um teste por regra.

Finalmente, as regras são integradas à interface para que tudo funcione. Eu faço isto de maneira incremental, ou seja, conforme as regras vão ficando prontas eu já vou incorporando-as à tela. Eu gosto mais dos testes finais (integração), ou seja, de ver a tela funcionando e fazendo que ela foi projetada que fazer. No meu caso, é onde eu pego a maior parte dos erros de construção. E, quando acabo este processo, a tela está quase totalmente pronta.

Embora utilizemos uma fase de homologação pelo cliente, eu uso isto mais como um processo de validação/aceitação do que de testes. Acredito que um bom desenvolvedor deva entregar seu software pronto, e pronto significa sem erros. Assim, não acho que o usuário final ou cliente deva participar do processo de depuração. É claro que algumas vezes eles vão encontrar erros ou bugs; mas isto tem que ser exceção, não regra.

Durante todo este processo, o framework é também evoluído. Se for detectado algo que está dando algum excesso de trabalho braçal, ou alguma coisa que poderia ser feita pra aumentar produtividade, isto já é feito durante o desenvolvimento (desde, é claro, que não seja algo muito grande). É claro que isto não pode ser feito por desenvolvedores inexperientes, daí a necessidade que temos de termos somente equipes formadas predominantemente por seniores. Com isto, o objetivo é que nossa produtividade não só seja alta agora, mas que ela continue a aumentar com o tempo.

Em linhas gerais, é este o processo que eu sigo. No próximo e último post eu vou falar um pouco sobre casos de exceção e pontos como construção de serviços e exportação/importação de dados, muito comuns a todos os sistemas. Até breve.

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  1. #1 por Christian Cunha em 03/01/2011 - 9:59 am

    Excelente post Valente, bem claro. Curioso é que apesar de trabalharmos na mesma empresa nossa abordagem seja tão diferente, já que a minha é justamente a oposta bottom-up. Mas a flexibilidade de nossas ferramentas e metodologia nos permite ser produtivos.

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