Profissão Codificador

Acho que a carreira de muitos de nós, programadores, começa de maneira similar: usualmente em algum momento da adolescência temos contato com computadores, ficamos fascinados por eles (na minha época foi um Gradiente Hotbit MSX, com programação BASIC) e a partir daí começamos a programar. E se você está lendo este blog, é grande chance de que nunca mais você tenha parado!

Mas me pergunto como será o nosso futuro nesta carreira. Tirando os que mudam de área (viram gestores, analistas de “negócio”, instrutores ou simplesmente vão fazer outra coisa) ou os que passaram em concurso público (este é um assunto que eu nem vou entrar!), eu fico imaginando como seria o futuro dos que continuam a programar. Alguns se tornam consultores independentes famosos, o que irá garantir uma aposentadoria tranquila escrevendo livros, artigos e ministrando palestras. Mas acho que  atualmente a maioria dos bons codificadores trabalha no esquema de pessoa jurídica, para um ou mais clientes e vive da capacidade de horas que consegue fazer. E até quando? Em algum momento isto vai ficar cansativo, ou ele vai se desatualizar e vai sair do mercado (interessante que, salvo raras exceções esta ainda é uma área quase 100% masculina… mas isto é assunto pra outro post!). E qual será o destino destes codificadores?

Apesar de se trabalhar no esquema de pessoa jurídica implicar que se tenha um negócio, infelizmente esta é uma profissão com muito pouca “escala”, já que o limite são as horas que cada um consegue fazer no mês. Mesmo para os que têm uma veia empresarial e que contratam um ou mais auxiliares, esbarra-se no limite de gestão de equipe (que pra mim varia de 4 a 7 pessoas). A partir daí, a qualidade cai ou se começa a ter dificuldade de garantir entregas ou prazo. E as tentativas de crescimento com equipes maiores são extremamente complicadas – falo por experiência! E não é fácil ter um negócio dependente da venda de projetos ao invés de horas; da maneira que eles como são vendidos hoje, em regime de preço fechado, eles tem um risco altíssimo, que quase sempre é negligenciado para se garantir o melhor custo, resultando em mais prejuízos do que sucessos.

Assim me pego muitas vezes pensando neste assunto. Nossa profissão é jovem, ou seja, não tem muita gente no final de carreira ainda. Mas estamos prestes a chegar lá. E acho que se não começarmos a pensar e atuar nisto, pode ser que para a maior parte de nós, este fim de carreira não seja uma experiência muito tranqüila.

Outro ponto interessante é que os que permanecem codificando são justamente os melhores desenvolvedores. E lembrando da regra de 10:1 de produtividade (como o Steve McConnell sumariza bem aqui), isto significa que as pessoas que tem mais probabilidade de ter problemas no final da carreira são justamente as que são as grandes responsáveis por construir o que está sendo feito hoje, como líderes de times, arquitetos ou simplesmente “virando” noites para fazer aquele projeto atrasado e over budget ser entregue. De uma certa maneira, este grupo é a espinha dorsal dos que hoje fazem acontecer e que são usados pelos que não são tanto (para quem gosta de reflexões mais aprofundadas, recomendo o livro “Atlas Shrugged” da Ayn Rand. Escrito na década de 50, fala de uma sociedade onde poucas pessoas com excelência técnica e artística sustentam todos os demais até que elas se cansam e entram em “greve”… Muito interessante).

De certa maneira, a disseminação cada vez maior de metodologias ágeis melhora um pouco o cenário das pequenas empresas. A troca do modelo de venda em preço fechado por uma baseada em venda de equipes para iterações curtas beneficia todos, permitindo que os riscos sejam melhor gerenciados e expondo-os muito mais cedo no processo. Exemplos como a ThoughtWorks, que se especializou neste tipo de venda com sucesso mundial acabam incentivando a mudança de cultura que está em curso atualmente. Claro que vai demorar pra isto subir até que licitações públicas sejam feitas de forma diferente, por exemplo, mas acho que isto vai acabar acontecendo.

Mas isto não é a resposta para a grande maioria, que não tem vocação (ou interesse) em se transformar em empresários. E apesar de pensar bastante nisto, não vejo saída fácil e fico preocupado com o futuro destes desenvolvedores. Mas não deixo de conjeturar como seria se todos estes melhores codificadores se juntassem em algum tipo de empresa comum, onde a excelência técnica fosse aplicada na construção de produtos que resultassem em ganhos diretos. Interessante, não? Se alguém tiver pensamentos a respeito deste assunto, entre em contato!

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  1. #1 por Juan Lopes em 04/10/2009 - 2:23 pm

    São perguntas bastante capciosas. Vejo isso nos olhos recriminadores das pessoas que ouvem falar que pretendo fundamentar minha carreira na programação, e não almejo ser gerente ou algo do gênero.

  2. #2 por Rafael Noronha em 04/10/2009 - 3:58 pm

    Esta reflexão é extremamente válida.

    No meu ponto de vista, uma alternativa interessante para quem pretende continuar exercendo um papel técnico é estudar oportunidades de atuação fora do país.

  3. #3 por Fred Dale em 25/10/2009 - 2:28 am

    O futuro é incerto! A programação, que vejo quase como uma arte, ou a área de gestão e gerência com sua estabilidade? Ao meu ver, ainda não está claro como vamos envelhecer na nossa profissão, que tipo de status teremos.
    E “…se todos estes codificadores se juntassem em algum tipo de empresa” seria MUITO interessante!

  4. #4 por Henry em 28/10/2009 - 1:34 am

    Sobre a sua conjectura, é simples: Todos eles se matariam em pouco tempo 😉

  5. #5 por Edmilson Prata em 12/01/2010 - 2:21 pm

    Há algum tempo eu achei que hoje todos estariam morrendo de dor e se aposentando por causa das lesões por esforço repetitivo. Fiquei alarmado! Mas isto não aconteceu. Acho que, apesar das muitas pesquisas em aumento da produtividade, o codificador (como chamado) jamais deixará de existir. A menos que a Matrix ou a Skynet domine de fato o planeta! Mas as questões levantadas são mesmo muito interessantes.

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